10/11/2016

Criado-mudo com história


Adoro quando uma peça me leva muito além do simples objecto, quando me permite ir à procura da origem, o que, na maior parte das vezes, me faz retroceder décadas e andar por caminhos cheios de história. Foi o que aconteceu com este criado-mudo.

O termo vem do brasileiro, mas sempre designei desta forma estes cabides de pé, que cumprem a função dos antigos mordomos ou criados. Já tinha um que pertenceu ao meu avô, mas o Tiago queria um para ele. Procuramos pelas feiras de velharias mas não encontramos nada que valesse a pena.  Foi o meu sogro que o descobriu no Emaús. Enviou-nos uma foto e sim! era este, muito fora do vulgar. Nunca vi outro igual, com base redonda e parte do pé metálico e extensível.

Mal chegou, os meus olhos reluziram quando vi a plaquinha metálica do fabricante, “Grandes Armazéns Nascimento”. Nunca tinha ouvido falar mas felizmente podemos Googlar e encontrar blogs tão bons, como o Restos de Colecção. Estava longe de imaginar que me levaria à origem de um edifício tão emblemático da cidade do Porto.


O Edifício dos “Grandes Armazéns Nascimento” fica na esquina da rua de Santa Catarina com a rua de Passos Manuel, mais precisamente onde hoje convivem a C&A e a Fnac. Foi encomendado por António do Nascimento, um próspero industrial de marcenaria, com fábrica no Freixo, a Marques da Silva, um dos mais prestigiados arquitectos portuenses da época. António Nascimento era intitulado o maior produtor de móveis da Península Ibérica e a sua intenção era de construir um grande armazém de mobiliário e decoração de interiores.

Estávamos em 1914 quando o arquitecto José Marques da Silva apresentou o seu primeiro estudo, depois de ter feito uma longa viagem pela Europa, para observar estabelecimentos desta natureza. O edifício só seria, no entanto, inaugurado em 1927, já António do Nascimento tinha falecido.

Após os herdeiros de António do Nascimento terem perdido a sua fábrica no Freixo, destruída por um incêndio em 1934, foram obrigados a vender os armazéns em 1939. Este edifício seria adquirido para ali se instalar o luxuoso café “Palladium”. Este café, que ocupava 3 pisos, era frequentado por comerciantes abastados do Porto e esteve em funcionamento entre 1940 e 1974, chegando a ser considerado o maior da Península Ibérica.

Depois de 1974 o edifício foi novamente transformado, desta vez num pronto-a-vestir, as Galerias “Palladium”, que perduraram até meados dos anos 80. Estas sim, já do meu tempo.

Fonte: Restos de Colecção

Fonte: Restos de Colecção
Contas feitas, o meu novo criado-mudo, será anterior a 1939, por isso terá pelo menos cerca de 80 anos.

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